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15 de Setembro de 2019

Guerra contra as drogas – Miramos os entorpecentes e acertamos as pessoas

Drogas ilícitas são antidepressivos sem receita médica, portanto, para pobres. Traficantes não cobram consulta.

Nelson Olivo Capeleti Junior, Advogado
há 2 meses

O Mundo, em especial o lado ocidental do globo, sofre com a política desastrosa de guerra as drogas. Os jovens, em especial os idealistas, não se encaixam no formato de vida que a mídia e a indústria os oferecem, valendo-se dos antidepressivos de seu tempo.

A droga, diga-se, não é um objeto que se encerra em si mesma. A droga é uma ferramenta que oportuniza o alcance de outros estágios de consciência, outros mundos, talvez mais alegres, talvez mais aceitáveis. Ora, não é outra a concepção dos antidepressivos. Drogas ilícitas são antidepressivos sem receita médica, portanto, para pobres. Traficantes não cobram consulta.

Se aceitamos que a utilização de drogas é uma fuga a um mundo inaceitável, onde está o erro? É certo criminalizar quem busca uma solução para uma vida insuportável?

Via de regra, quem busca essa ponte entre o real e a fantasia são os jovens idealistas. Logo, precisam ser abraçados e não criminalizados. Precisamos discutir a fundo e pensar por que estes jovens não se encaixam no mundo pós-moderno. Precisamos pensar a pós modernidade e as justificativas que empregam sentido a existência. Uma sociedade baseada no consumo é um campo fértil para o adoecimento da mente. As melhores coisas da vida não são coisas.

Uma boa maneira de empregar sentido a existência é buscar fundamentar a vida em um conceito transcendental, teológico, empregando à existência uma finalidade de aprimoramento moral em busca da perfeição. Disse jesus: sejam perfeitos!

No entanto, a juventude não se encaixa nas religiões, pois onde deveria estar a mensagem de paz, encontra-se o discurso de ódio e perseguição.

No bojo familiar, os genitores ausentes, eis que a desvalorização da moeda obriga a família a trabalhar arduamente, buscando, não raro, sobrejornadas de trabalho para dar conta das necessidades domésticas.

O idealista, logo, se refugia nas artes, na música, no cinema, teatro e literatura. Logo, descobre que o mundo é maior e a vida mais ampla do que lhe é possível, e um baseado, a semelhança de antidepressivo, lhe atenua a dor da vida não vivida, do gozo não gozado, transformando em jardim a usina ruidosa de todo dia.

A solução que a sociedade organizada tem adotado para mudar este quadro é criminalizar as drogas. Entretanto, ao criminalizar as drogas, não acertamos as drogas, mas as pessoas que delas se utilizam para fugir de suas realidades.

Em vez de investirmos na sociedade, através de oportunidades de emprego, urbanização das regiões desfavorecidas, arborização dos espaços públicos, capacitação para o trabalho, acesso à cultura e lazer, públicos, para que as pessoas não se refugiem em sonhos, criminalizamos, perseguimos, marginalizamos quem não tem a resignação de aceitar o modo de vida que a sociedade oferece.

Vivemos em um mundo no qual se vende a concepção de que tudo é possível, mas oportunidades não existem. A religião é um local de ódio. A família não senta a mesa, e, quando acomoda-se na mesa de jantar, encontra-se cada qual refugiado em seus ambientes virtuais. Não há mais o que conversar, e refugiamo-nos em companhia de Alice no país das maravilhas. Tornamo-nos introspectivos, depressivos, buscamos a fuga de um mundo cinza e sem abraços, e então vem a droga e seus excessos. Todo excesso esconde uma falta.

Diante de todo o exposto, resta clarividente que a política de guerra às drogas deve ser revista. O caminho é a guerra contra a falta de organização social, a falta de empregos, ausência de urbanização, uma guerra contra aquilo que nos faz adoecer psicologicamente. Dever-se-ia travar uma guerra contra as condições que levam uma pessoa a buscar à droga.

Por fim, este texto não é uma defesa às drogas. Seria estranho defender os antidepressivos. O que se precisa compreender são os motivos que levam as pessoas a buscarem os antidepressivos, em especial os sem receita médica, hoje criminalizados. Este texto é contra as circunstâncias que nos levam às drogas.

O que se precisa compreender é que o direito penal não é a solução para reerguer espíritos idealistas que, não raro, acabam tendo problemas com as drogas (todo excesso esconde uma falta), eis que preferem o mundo das fantasias ao mundo real, cinza e ruidoso de todo dia. Aliás, o direito penal não é a solução para coisa alguma, senão uma política paliativa e desastrosa que apenas afasta da sociedade os "indesejáveis" dando a coletividade uma falaciosa percepção de segurança.

Plantar uma árvore seria um começo.

43 Comentários

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muita besteira. romantizar o uso não ajuda tanto quanto a guerras as drogas...
é um absurdo deixar de citar as famílias desestruturadas e toda cadeia de comércio paralelo pautada na violência.
lendo isso parece que só adolescentes classe média alta viram usuários. continuar lendo

Posicionamentos contrários são importantes para enriquecer um debate salutar. Entendo vosso questionamento, e enfatizo que a problema das drogas é sensível em todas as classes sociais, mas sobretudo nas mais pobres. Não é nos bairros ricos que os jovens são mortos pela polícia, mas os bairros pobres. Estigmatizados pela criminalização da mídia que cria um estereótipo do "marginal", os pobres são vitimas fragilizadas, uma vez que não possuem acesso aos meios de comunicação ou capacidade financeira para uma defesa técnica que desestimule abusos por parte da polícia.

Nossas cadeias estão lotadas de jovens, primários, pobres, usuários, presos como traficantes. continuar lendo

Verdade, Caro Héctor. É muito blá, blá, blá; misturado com mi, mi, mi, pra defender quem não merece. Vamos parar de romantizar vagabundo, gente. Quer se drogar? Beleza! Mas assuma as consequências de seus atos, ora bolas, não repasse à sociedade o preço a ser pago por sua irresponsabilidade, pois nenhum traficante encosta um "38" na sua cabeça forçando-o a revirar os "zóio" usando veneno, o indivíduo o faz por livre arbítrio, na busca de uma saída fácil para os dilemas da vida inerentes a todos nós (pobres, ricos, pretos, brancos, héteros, bi, tri, poli, etc.). Todavia, quando passa o efeito do alucinógeno, são os caretas que pagam a conta, dado que no afã de manter o "barato" e se livrar da fissura: roubam, matam, tocam o terror na própria família e nas de outrem. E, ainda me vem esses "direitusdusmanus" alegar que tais criminosos são apenas "vítimas de uma sociedade capitalista opressora?" Façam-me o favor, civilizados de araque. E, por último e não menos importante, reforço e reitero o drama enfrentado pela família, usada e abusada pelo meliante, bom, essa daí é só um detalhe sem importância pelos civilizados e cultos defensores dos adictos, afinal, merecem todo o sofrimento por serem cidadãos de bem (pobres ou não) e, principalmente, por enfrentarem os revezes da vida sem o auxílio de entorpecentes. Talvez se cedessem ao vício, fossem merecedores de comoventes artigos 'pseudo-humanistas", infelizmente. continuar lendo

Perfeito, Antonio de Carvalho. Não poderia ter me expressado melhor q vc. continuar lendo

Anti depressivo sem receita é uma afirmação que beira o absurdo.
Ser viciado não é a mesma coisa que ser poeta.
É um problema que tem vínculos com o desregramento social, mas por detrás, existe uma lucrativa industria. continuar lendo

Drogas são um problema social grave. A questão é: o direito penal é o melhor remédio para tratar o problema? continuar lendo

Nelson:
Não existe, no meu modo de ver o melhor remédio.
Existe sim, o melhor tratamento e este pode ser composto por diversos remédios, que formem um conjunto capaz de combater o mal.
O que não pode acontecer, é o que hoje acontece, de imaginar que se pode combater um universo denominado "mundo das drogas" com artifícios que apenas beiram o paliativo. continuar lendo

Título utópico: "Apoio às drogas – Defendemos os drogados e punimos a sociedade" continuar lendo

Exato, Antonio. Resumiu bem. continuar lendo

Jesus me ajude! É sério q o senhor está defendendo q as drogas são meios lícitos de fuga da realidade e não tem nada demais?????? Como alguém q já teve um parente q fugia da realidade usando drogas, roubando a família, sendo ameaçado, fazendo q meu pai tivesse q pagar as dívidas, interná-lo e ele fugia, e causou muita dor e problemas até ser assassinado, acho esse argumento algo tão horrível, e usarei esse adjetivo para não ser ofensiva. No q me diz respeito, sempre brigarei para que traficantes e usuários acabem na cadeia, antes de destruírem vidas de pessoas decentes (decente é quem não se droga), no processo de conseguir mais uma dose. continuar lendo

Isa Bel, bom dia.

Em nenhum momento o texto usa do argumento de que a droga é uma forma licita de fuga de realidade. O texto não defende não uso de drogas. O texto não estimula o uso de drogas.

Você perdeu seu genitor em uma experiência de abuso de narcóticos. O fato de a política de guerra não ter ajudado a sua família, não te diz nada? A guerra as drogas, com todo o respeito, foi eficaz para salvaguardar os interesses de sua família?

Todos os estudos de criminologia contemporâneos apontam para o fracasso da guerra as drogas.

Repito: o texto não defende o uso de drogas, mas uma forma adequada de se tratar o problema. continuar lendo

O pior Isa, é querer a todo custo comparar um doente de verdade, hanseniano, tuberculoso, canceroso, aidético, por exemplo, a um drogado, vez que nos primeiros casos por mais que QUEIRAM se tratar podem não se curar (no caso da AIDS, só o tratamento atualmente ameniza o sofrimento), já no caso dos drogados, há uma VONTADE deliberada do indivíduo em se tornar viciado e já é useiro e vezeiro que tratamento nenhum surte efeito se o próprio não QUISER ser tratado, simples assim. Vamos parar de romantizar vagabundo, gente. Chega! continuar lendo

Sabe pq não ajudou, Nelson? Pq não colocou meu irmão na cadeia, pois usuário não é preso. Se ele fosse preso pq usava drogas, não roubaria, não causaria mal as pessoas, pois estaria preso. Se todos aqueles zumbis q ficam pelas ruas no centro da cidade, nos roubando, nos ameaçando, furtando, fossem jogados nas cadeias, a sociedade estaria mais segura. "Ah, mas eles serão soltos". Sim, e se usarem novamente, serão presos novamente. A escolha é deles: ou largam essas merdas ou ficarão na cadeia. Simples assim. Tanto traficante, quanto receptador e usuário é receptador de produto ilícito (drogas), devem ser presos e ter penas altas. Usuário de drogas não é doente. Ele fez uma escolha consciente e opta por não sair dela, mesmo se oferecida ajuda. Oras, q arque com as consequências do q faz. continuar lendo