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29 de Março de 2020

Ditadura no lar e sexualidade

Cibele saboreou os conceitos. Os olhos brilhavam de excitação pelas considerações, as quais foram transportadas para a sua experiência conjugal. Fez-se um silêncio eloquente na sala. A cena do beijo entre as amigas pairou no ar

Nelson Olivo Capeleti Junior, Advogado
há 8 meses

Ricardo era um esposo carinhoso, sempre cheio de mimos e abraços com sua esposa, Cibele. Sempre que a esposa estava a fazer os trabalhos domésticos, varrendo o chão ou lavando as louças do ágape pretérito, vinha Ricardo com seus abraços e ósculos no pescoço róseo e perfumado da esposa dedicada e fiel.

Ambos trabalhavam na área de serviços. Ricardo era vendedor em uma loja de eletrodomésticos e Cibele em uma loja de roupas. Embora a jornada extenuante de ambos, apenas Cibele encarregava-se dos labores domésticos. Desde criança, Cibele fora educada para manter o lar como um ninho de bençãos para a família, e Ricardo, fora educado no sentido de que cabe a mulher determinados afazeres.

Mesmo quando a casa recebia amigos fiéis, que lhes comungavam da mesa de jantar e com os quais passavam a dialogar noite afora, no dia seguinte, era Cibele quem tinha a obrigação de limpar toda a bagunça deixada pelos convivas.

Eis que, em um sábado de sol agradável, convidaram o casal Marta e Cláudio para dividir-lhes o ambiente doméstico. Os homens teriam a noite entre diálogos e doses de Whisky, temperados por charutos cubanos. As mulheres teriam a noite entre confidências e doses de licor.

Chegado o momento aprazado, Ricardo e Cibele receberam no pórtico de casa o casal de amigos, os quais, após os cumprimentos protocolares, adentraram o ninho doméstico, constituído de arquitetura moderna e decoração do mais alto refinamento.

A sala vultosa, no conceito aberto, acomodou os casais confortavelmente. As janelas amplas possibilitavam uma excelente visão do exterior iluminado. Ricardo pediu escusas e dirigiu-se ao barzinho em um dos cantos da sala para servir-se e, servir ao amigo uma generosa dose de requintado bourbon.

Os homens, de copos nas mãos, pediram licença as esposas e foram ao jardim aos fundos da casa para fumarem seus charutos cubanos Monte Cristo nº 2.

Entre doses da bebida envelhecida em barris de carvalho e baforadas fumegantes, Ricardo confessa ao amigo: estimado, se me concede a graça de uma confissão (Cláudio levantou as orelhas, atento), devo dizer-lhe que, inobstante o prazer que sinto pela dedicação de Cibele nas tarefas do lar, a verdade é que, de tempos para cá, tenho experimentado um sentimento de desconforto ao vê-la fazer tudo sozinha nos labores domésticos. Estaria ficando efeminado?

Cláudio, meio claudicante, com medo de ferir a sensibilidade rústica do amigo, obtemperou: compreendo-te, estimado, pois não é outro o meu sentimento em minha casa. Minha vida venturosa ao lado Marta tornou-se muito melhor quando interpretei-me a semelhança dos escravagistas.

Escravagistas?! Arrematou Ricardo.

Sim, estimado, acompanhe meu singelo raciocínio: Desde sempre a mulher foi obrigada a fazer as tarefas do lar. Em um passado não muito remoto, nossos descendentes europeus tinham escravos e, com a abolição do regime escravagista, fomos compelidos pela covardia e ignorância a escravizarmos as nossas esposas, vez que não poderíamos admitir que o homem, senhor de seu lar, fosse constrangido a adotar afazeres desta natureza. Ainda hoje, de outra forma, as favelas, que são uma herança do regime escravocrata de ontem, nos concedem mulheres sem instrução, carentes de todos os recursos imagináveis, que nos servem de empregadas domésticas. Logo, em analogia, um resquício da escravidão de outros tempos.

Portanto, amigo, o sentimento que lhe constrange é vossa consciência que começa a florescer, (e, buscando a forma mais agradável de comunicar). Talvez, deixar que a esposa assuma todos os ônus da manutenção rústica do lar, seja um ato semelhante daqueles que no passado tinha escravos no lar. (e arrematou em tom jocoso): Ora, Ricardo, vós sois um escravagista! Hahaha.

Noutro ambiente do lar, as esposas e amigas permutavam as mais singulares expressões, detendo-se em especial em um assunto: Sexualidade.

Cibele e Marta trocavam olhares de admiração, visto que ambas eram possuidoras de uma beleza peregrina, aristocrática. Ambas admiravam o belo em todos os elementos da natureza e em todos os cenários de vida. Fosse na arquitetura, jardinagem, na arte, ou na anatomia dos corpos. A beleza sempre fora um fator de estupefação para ambas.

Marta falava sem rodeios: eu acredito que, em termos de sexualidade, sendo o sufixo, "dade", compreendido por modo de ser no mundo, devemos compreender que o sexo é manifestação sublime do encontro de almas. Logo, manifestação de carinho, sendo, portanto, desprezível utilizar-se do sexo a semelhança dos animais irracionais, que entrelaçam-se sem responsabilidade.

Cibele olhava profundamente os olhos hipnotizantes de Marta, que continuava, fluente: meu esposo por vezes assume uma postura odiosa, recheada de preconceito, com relação a casais homo afetivos. Todavia, te confesso, que o ódio dele não é pela homossexualidade enquanto modo de ser, mas pelos impulsos sexuais que ele reprime, de si para consigo. Ora, acredita que ele ficaria incomodado se observasse duas mulheres permutando carícias? Pois te digo que, se ele chegasse em casa e me encontrasse aos beijos com outra mulher, ficaria, talvez, ávido de felicidade pela oportunidade contemplativa.

Cibele saboreou os conceitos. Os olhos brilhavam de excitação pelas considerações, as quais foram transportadas para a sua experiência conjugal. Fez-se um silêncio eloquente na sala. A cena do beijo entre as amigas pairou no ar. Os olhares se perderam por um instante no vazio e ambas se projetaram no imaginário, entrelaçando-se entre si. Cibele se viu surpreendida em uma atmosfera de desejo. Trocaram um olhar, maroto. Marta estendeu a mão à amiga e arrematou: mostra-me onde fica o banheiro!

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