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18 de Junho de 2021

Raul Seixas e a crise na América Latina

Raul contestou às leis, à ditadura, o serviço militar, à família com sua base patriarcal, contestou até mesmo o direito do homem sabidamente adúltero de exigir de sua esposa, fidelidade.

Nelson Olivo Capeleti Junior, Advogado
há 2 anos

À América Latina está em chamas. O Líbano está em ebulição social. A primavera árabe se deu recentemente. No Brasil, mudanças estão em curso. Nosso modelo de civilização está se esgotando? Parece-nos que sim. Não à toa, a depressão e a ansiedade atingem patamares epidêmicos.

Parece que percebemos que as políticas públicas não nos encaminharão para o progresso. No Brasil, especificamente, a luta contra o uso das drogas tem se revelado uma política genocida. Para que ninguém morra fazendo uso de drogas, a gente, (Estado), mata quem usa drogas, e quem mais estiver pelo caminho. A política de encarceramento não ressocializa. Na administração pública… escândalos de corrupção. Capitalismo de compadrio.

O modelo de consumo que nos foi enfiado garganta abaixo, com seus modelos de comportamento nas propagandas e nos outdoors, fracassaram. A gente acordou e descobriu que, ser como à garota da revista, magra e com roupas de grife, não causou saciedade, e, o carro que denotava sucesso, não trouxe mais do que dívidas para a família.

Parafraseando René Descartes: penso, mas não existo.

Raul Seixas, um marginal (no sentido de quem vive a margem da sociedade), identificava nas políticas públicas e nas relações pessoais toda a hipocrisia que ora nos explode na face e nos acarreta psicopatologias.

A filosofia de Raul nos alerta de que a vida não pode ser cinza e mecânica, sem aroma e sem sabor (Meu amigo Pedro):

Vai pro seu trabalho todo dia
Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro, as coisas não são bem assim
Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você, meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno

Raul contestou às leis, à ditadura, o serviço militar, à família com sua base patriarcal, contestou até mesmo o direito do homem sabidamente adúltero de exigir de sua esposa, fidelidade. (A maça):

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero?
Que é a beleza de deitar

A sociedade nos oferta modelos de comportamento. Modelos de família. Modelos a serem seguidos para que ocorra o progresso e a manutenção de um convívio social.

Precisa ser assim? Preciso seguir os modelos? Os modelos são inclusivos ou excludentes? Num determinado parâmetro de relacionamento, a ética que a envolve; é fundada em valores universais, de fraternidade e amor, ou em valores de dominação, de castração do outro?

Hoje a ética animal entra no radar da humanidade. Passamos a ter maior respeito e consideração pela vida não humana. De outro lado, a união homoafetiva, embora encontre resistência nas mentes rústicas e embrutecidas, adquire paulatinamente a aceitação da sociedade.

Uma demanda por ética na administração pública surge fortemente, ainda que de forma insipiente, e, ainda que a maioria da população, ingênua, acredite que a corrupção está adstrita a apenas um partido político.

No Chile de hoje, no Equador, na Argentina, a população parece ter percebido, talvez, sem sequer ler o Contrato Social de Rousseau, que abrimos mão de nossa liberdade pelo bem comum, e que o bem comum deve ser provido pelo Estado através de serviços, como educação, saúde e segurança, em contraprestação aos nossos impostos.

No Brasil a retirada de direitos vai na contramão de nossos vizinhos. No Brasil, diuturnamente, estamos perdendo o mínimo existencial. No Brasil, muitos intelectuais estão acordando, e grande parte da população percebe aquilo que o cantor e compositor marginal do século passado nos legou…

Surge a necessidade de uma Sociedade Alternativa!

3 Comentários

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Nos meus quase 39 anos, sempre vi o Brasil tentando alternativas. Com exceção da URV, todas falharam. Existe um mundo de estudos empíricos mostrando medidas que dão certo, mas sempre queremos ser diferentes. Claro, sem esquecer das ideologias calçadas em projetos de engenharias sociais — que invariavelmente terminam em hecatombes.

Esse é o Brasil eternamente errante! continuar lendo

Se levarmos em consideração que que o ensino público teve inicio por aqui com 100 anos de atraso com relação aos estados unidos. Se levarmos em conta que há 200 anos atrás não havia moeda, estradas, escolas, que a economia era baseada no escambo e na escravidão.... até que evoluímos. Hoje somos uma das maiores democracias de massa do mundo e uma das maiores economias. Temos uma constituição que garante o Estado de direito e que sobreviveu há dois impedimentos, um presidente preso, e um atual governo que flerta diuturnamente com o autoritarismo.

Vamos sobreviver.. continuar lendo

São diversos países com história pior que a nossa, é que hoje são desenvolvidos. E não só porque não foram colônias de exploração.

Não somos uma das maiores economias do mundo. Nosso PIB per capita é menor até mesmo que da Argentina — e olha que lá eles vivem em crise. Se for comparar com a média da OCDE, viramos piada.

Diversas são as medidas para se melhorar uma economia. Abrir o mercado, reduzir o papel do estado como agente de mercado, fortalecer as instituições, promover a educação de base, ter segurança pública e jurídica, dar maiores condições de negociação entre empregado e empregador, dentre diversas outras. Mas o que se propõe no Brasil? Protecionismo com as empresas nacionais, desenvolvimentismo, estatais atuando no mercado, educação privilegiando as universidades (afinal, é onde a elite estuda), cotas, desencarceramento, justiça do trabalho paternalista, judiciário como promotor de justiça social, e etc.

Afinal, somos o país que sabe das coisas, ao contrários desses países “imperialistas” e “neoliberais” (termo que simboliza nossa oligofrenia) onde o pobre tem condição financeira melhor que metade de nossa classe média.

Temos um governo que flerta com o autoritarismo? Sim, claro! E nosso ex-presidente preso flertava com isto também, afinal, o esquema de corrupção que ele fazia parte era um enorme projeto de poder. E tem muito brasileiro que bate palmas para isto (autoritarismo). Afinal, enquanto a democracia liberal é uma regra, o autoritarismo é diferentão! Seja ele de esquerda ou de direita... continuar lendo